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11 de junho de 2011

Fecho



Boa noite. Fechamos esta sexta-feira com mais uma crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Publicidade gratuita?

Aquilo que os franceses fazem não deve, se calhar, interessar-nos senão na estrita medida em que venha a influenciar o que os portugueses acabam por fazer. Infelizmente - e este "infelizmente" é ponderado -, Paris continua a exercer uma influência significativa sobre muitos dos nossos intelectuais e dos nossos decisores, que a vêem muitas vezes como a pátria da bem-aventurança. Daí que me preocupe esta decisão do Conselho Superior de Audiovisual de França proibindo o uso das palavras "Facebook" e "Twitter" na televisão, de forma a evitar a "publicidade gratuita".

Confronto-me com esta realidade sempre que, por exemplo, passo pelos Açores, onde os jornalistas da TV e da rádio públicas passam a vida a fintar, de forma aliás bastante cómica, as marcas comerciais, referindo-se a "uma fábrica micaelense de charutos", "uma unidade hoteleira de Angra" ou "uma cooperativa queijeira da ilha de São Jorge". Parece que voltei atrás no tempo - isto é, ao pior que esse tempo tinha, incluindo a hipocrisia e a dissimulação -, mas não ligo: a província é dada a idiossincrasias desta natureza. Coisa diferente é, necessariamente, a informação nacional, onde a hipocrisia é mais bem disfarçada, mas existe - e, aliás, pode ganhar uma nova legitimidade com esta decisão francesa.

As marcas comerciais são personagens da vida quotidiana. Têm tanto direito a existir como as pessoas e os lugares, muitas vezes estes (e estas) de vocação tão comercial como elas. Porque é que um escritor que vende os seus livros pode publicitá-los gratuitamente na televisão e um tipo que vende batatas fritas ou chapéus-de-chuva não pode? Eis o que nunca alguém foi capaz de explicar-me.

9 de junho de 2011

Fecho


Boa noite. Fechamos esta quarta-feira com a habitual crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Ainda sobre as eleições

1. Independentemente dos meios tecnológicos e da espectacularidade da realização escolhidos por cada estação, a vitória da RTP nas audiências da noite eleitoral tem uma leitura inevitável: quando se trata das matérias que entendem como as mais sérias, nomeadamente aquelas que colocam em jogo o nosso destino comum (as eleições, a selecção), os portugueses preferem a companheira de mais de 50 anos.

A cobertura dedicada pela RTP ao sufrágio de domingo sobreviveu mesmo a um José Rodrigues dos Santos rouco e, portanto, com a voz ainda mais esganiçada do que é costume.

Um património - e um património de tal forma inexpugnável que nem a presença de Miguel Sousa Tavares na SIC ou da dupla José Alberto Carvalho/Judite de Sousa na TVI conseguiu combater.

2. Sócrates sabia que ia perder as eleições e apostou tudo nos seus últimos "quinze minutos de fama". Resultado: jogou bem com as emoções, semeando agora para colher mais tarde.

Surpreendente será, depois do discurso de domingo, se, dentro de dois anos, quando se começarem a discutir os presidenciáveis, o seu nome não vier à baila a par dos de Guterres, Durão e Marcelo. Seis anos a praticar a empatia com as câmaras e a leitura do teleponto tinham de dar os seus frutos.
3. RTP, SIC, TVI, RTP N, SIC Notícias e TVI24 - houve momentos, no último domingo, em que todos os seis canais passavam publicidade ao mesmo tempo. Mais ainda do que é costume, este ciclo eleitoral foi um bom negócio para a televisão.

Agora, e com o futebol parado e o próprio Passos Coelho respirando fundo antes de enfrentar o cumprimento do exigente acordo com a troika, vai ser preciso um milagre para as estações manterem a facturação do último mês.

7 de junho de 2011

Fecho


Fechamos esta segunda-feira com mais uma crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Ponto de situação

1. A forma como o processo eleitoral desfilou na televisão, e apesar da excepcionalidade do momento, foi grosso modo igual a sempre, sem imaginação por parte dos jornalistas e sem rasgo por parte dos políticos. Novidade, mesmo, só a imposição, pelo tribunal, de debates com os pequenos partidos. Com que utilidade? Nenhuma. Deixem-me ser claro quanto a isto: nenhuma, a não ser evidenciar que se trata de uma realidade folclórica, com legitimidade eleitoral mas nenhuma razão para ser imposta à TV.

2. Ou muito me engano ou a tragédia que atingiu a actriz Sónia Brazão vai acabar por transformar-se num meio de referendo ao star system da ficção nacional, incluindo os abismos da sua fama pequenina. Os primeiros sinais já aí estão. Falta confirmar se não será mesmo justificada, essa transformação.

3. A polémica em torno do mais recente teledisco de Rihanna, que acompanha o lançamento nas televisões do single Man Down, é um absurdo. O vídeo, em que uma mulher é violada e vem a executar o seu violador a tiro, é provocador e tem, de facto, uma certa dose de violência. Não mais, porém, do que as mais corriqueiras séries policiais. Será mesmo suposto desprovermos a música pop de tudo o que ainda lhe reste (se resta) de intervenção social?

4. O abandono dos elencos de séries de TV por parte de actores de sucesso quer dizer, normalmente, uma de duas coisas: que o actor cresceu de mais para o seriado ou que, estando este a morrer, começa a cortar o orçamento e já não pode pagar às suas principais estrelas. A saída de Patrick Dempsey de Anatomia de Grey significa o mesmo que a saída de Lisa Edelstein de Dr. House: que Anatomia de Grey morreu. Paz à sua alma.

26 de maio de 2011

Fecho


Fechamos esta quarta-feira com a habitual crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Uma estreia paupérrima

1. E, no entanto, a pornografia gratuita está muito longe de ser o principal problema de Spartacus (Fox). Da intriga aos diálogos, passando pelas actuações e pela própria realização - nada funciona, tornando provavelmente justo dizer-se que há muito tempo uma grande estreia não se revelava uma tal decepção. Bem vistas as coisas, Spartacus não passa de uma espécie de cruzamento entre a Playboy TV e Conan, o Bárbaro. É soft porn fundida com testosterona - e mais nada. Os diálogos revelam-se de um esquematismo atroz. Os actores, para além de absolutamente desprovidos de talento, são de uma beleza tão óbvia como vulgar. O jogo entre o tom introspectivo à Gladiador e a estética cartoonística à 300 não resulta de todo - e, no meio disto tudo, a opção por uma história mil vezes contada não teria nunca forma de segurar-se. É um desperdício de dinheiro, de gente e de atenções, no fundo. A Fox tem uma responsabilidade. Como é que vamos acreditar nela da próxima que nos prometer uma "estreia da década"?

2. Grande iniciativa de comunicação, e ao mesmo tempo grande iniciativa de marketing, a aposta de Marcelo Rebelo de Sousa numa aplicação para iPad com os vídeos dos seus comentários na TVI. No final, haverá meia dúzia de pessoas a vê-lo através do tablet . Mas o sound bite da notícia há-de perdurar - e com ele tanto ganha o próprio Marcelo como ganha a disseminação daquela tecnologia em Portugal.

3. É impressão minha ou a forma como as coisas estão a decorrer no Tribunal de Oeiras, onde o ex-pára-quedista Fernando Pereira foi queixar-se de plágio em 1ª Companhia (TVI), começa a encaminhar-se para uma sentença histórica?

23 de maio de 2011

Fecho


Em fecho, mais uma crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.


Estreias e Balanços

1. O leitmotiv é publicitário, ou pelo menos promocional - e os conteúdos não só são limitados, como são alvo de repetição tão exaustiva que se torna extenuante. E, no entanto, Fora da Box, a nova série do chamado "canal 54 do Meo" (o canal de auto-promoção do dito, no fundo), com os Gato Fedorento e Rui Unas nos principais papéis, chega a ter graça. Talvez seja das saudades. Por outro lado, parte do futuro será assim, com as marcas explorando, mas também subsidiando, os mais diversos formatos. Veremos no que isto tudo dá. Para já, são apenas passinhos de bebé.

2. "Passinhos de bebé" parece-me também a expressão ideal para descrever o que representa MTV VJ Blog Live Streaming, o programa que a MTV lançou no FaceBook. Para já, uma observação importante: perante a inovação da plataforma, a MTV Portugal optou por manter o formato o mais conservador possível. Os projectos de sucesso são sempre assim: com um pé na ilusão e outro na realidade. Esperemos pela maturação do formato.

3. Spartacus (Fox) tem claramente uma dimensão pornográfica. Os media vêm resistindo à palavra, mas ei-la aqui: é de pornografia, entre outras coisas, que falamos. E daí? Não está ela também na ficção nacional, na publicidade, mesmo no horário nobre?

4. House M.D. sem Lisa Edelstein não é House M.D. House M.D. sem Lisa Edelstein será uma série a viver para além do seu próprio tempo. É preciso saber quando parar. Por muito que nos custe, o mais sensato é acabar aqui: no fim da sétima temporada.

5. A TV portuguesa nunca conseguiu fazer uma sitcom de qualidade, ou sequer com um mínimo de graça. Será agora, com Família Sagrada? A conferir, a partir de quarta--feira, na RTP1.

22 de maio de 2011

Fecho


Em fecho, mais uma crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

Assim, não quero

Toda a gente tem as suas histórias com call centers. Mas eu tenho elogiado aqui recorrentemente o serviço de TV do Meo - e, portanto, é mais do que justo que denuncie o desastre que é o seu apoio técnico.

Ontem, voltei a ficar sem TV, sem telefone e sem a Internet, através da qual envio estes textos. E, então, começou o calvário habitual: verificar as conexões, desligar e voltar a ligar, telefonar para o 16200. Telefonei, esperei uma eternidade, ouvi os intróitos, fiquei a saber do serviço Fibra que (atrasadinho) ainda não tenho e registei a minha avaria, depois de uma maratona de números, cardinais e identificações. Recebi ordens para esperar três dias úteis. Não podendo, ligava 16209. Liguei: mais números, cardinais e identificações, vinte minutos de conversa e despistes - e, pronto, fiquei na categoria "urgentes".

Como, entretanto, tinha comprado uma banda larga móvel ao mesmo Meo (20 euros para uma utilização ilimitada para o resto da vida, haviam-me prometido), tentei activá-la. Estava activada (soube-o após mais quatro telefonemas), mas nada. Devia ligar, então, 12030. Liguei. Não dava: era só para redes fixas (coisa que, estando o Meo avariado, eu não tinha).

Telefonei mais cinco vezes para o 16200 e o 16209 até saber que devia ligar, sim, 961000030. Aí, e ao fim de mais meia hora de ligações, números, cardinais, identificações e despistes, fui informado de que tinha de actualizar as minhas drives. Como? Pela Internet. Que eu não tinha.

Ao todo (vi os contadores), estive 68 minutos ao telemóvel, fora as chamadas abortadas por má rede. Paguei-os todos - e, ao fim do dia, continuava sem TV, telefone e Internet. Chamar-lhe "desastre" é um exagero?

19 de maio de 2011

Fecho


Boa noite. Em fecho, esta noite, mais uma crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

Passado e futuro

1. A aprovação pela ERC do novo canal temático House TV, com arranque agendado para Setembro, marca mais um importante passo da televisão nacional na direcção de um novo paradigma. Apesar dos vários projectos marginais que já temos nos diferentes distribuidores, o novo canal da World Channels SA, destinado fundamentalmente aos profissionais do imobiliário, é o primeiro grande projecto em "circuito fechado", com epicentro num sector da actividade económica e nas idiossincrasias do seu mercado. Nicho mais nicho do que isto não há. Quanto a modelos, pois, estamos conversados. Chegou a hora de desenvolver os existentes.

2. Suponho que Júlia Pinheiro e José Eduardo Moniz sejam inocentes - e, aliás, já me cansa esta profusão das denúncias de plágio, da televisão à música e ao cinema, tantas vezes demasiado fáceis neste tempo de paráfrase e uniformização cultural. Quem quer que já tenha apresentado um projecto a uma estação de TV portuguesa, porém, sabe que toda a tranquilidade que possa manter em relação aos seus direitos depende da confiança que conseguir depositar nos interlocutores. Se o pára-quedista Fernando Pereira, que acusa a TVI e a Endemol de o terem plagiado em 1.ª Companhia, tiver razão, terá perdido cinco anos da vida a pedir a reposição da mais elementar justiça. E cinco anos é tempo de mais. Ponto.

3. "Comparo um beijo a uma estalada. Sou actriz, vou ter de o fazer", disse Joana Santos (Laços de Sangue, SIC) ao Correio da Manhã. Quis justificar-se perante o namorado, o pai, uma tia velha. Mas mostrou-nos, mais uma vez, que estes miúdos não sabem a primeira coisa sobre qual o papel do actor: a interpretação de emoções.

17 de maio de 2011

Fecho


Boa noite. Fechamos esta segunda-feira com mais uma crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Coisas boas, coisas más

1. Confirma-se: Boardwalk Empire (AXN Black) é, com efeito, uma pequena maravilha. O facto de contar com actores extraordinários (Steve Buscemi, Michael Pitt, Michael Shannon...) tem o seu peso. A habilidade da reconstituição histórica, incluindo, por exemplo, o aparecimento de Al Capone como personagem secundária, ainda no arranque da vida de criminoso, também. Mas é o seu "relativismo justiceiro" que encanta. Enoch Nucky Thompson é um homem com sentimentos, como o prova a ternura por Margaret Schroeder, mãe lutadora e vítima de violência doméstica, mas não deixa nunca de ser diabólico. Não vejo melhor proposta de ficção, nesta altura, na TV.

2. Enquanto outros iam desvalorizando a importância do Festival, critiquei aqui a escolha de Os Homens da Luta como representantes de Portugal à Eurovisão. Enquanto outros iam desvalorizando a importância do Festival, satirizei aqui o ar emproado com que Os Homens da Luta (e Jel em particular) falam da sua "música". Insisto: Os Homens da Luta não deviam nunca ser representantes de Portugal num concurso musical e o ar emproado com que Jel fala da sua "música" (sic) é aborrecidíssimo. Mas, como esta vitória do Azerbaijão veio mais uma vez provar, o Festival deve de facto ser desvalorizado. Está tudo nos domínios da "produção" - e até a Itália já canta em inglês. O melhor é vender o franchising à MTV e começar de novo.

3. Para "povos primitivos", os membros das "tribos perdidas" de Perdidos na Tribo (TVI) não dominam nada mal a relação com as câmaras e com o ritmo televisivo. Devem andar há poucas décadas a servir de atracção circense em documentários, devem...

16 de maio de 2011

Fecho


Em fecho, esta noite, mais uma crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

Vermelho e verde

1. O argumento de Jorge Lacão sobre a necessidade da manutenção de publicidade na RTP, agora como meio de combate ao défice do Estado, tem algo de risível. No fundo, a mensagem que o ministro da tutela pretende de repente fazer passar é a de que a estação pública de televisão, que há décadas vilipendia o Orçamento do Estado e depois ainda dá prejuízo, virou de repente uma empresa com capacidade para não onerar as contas públicas e, ainda por cima, dar lucro. Um absurdo. De resto, só discute a publicidade na RTP quem não tem a mínima noção, nem da dimensão da nossa estação pública, nem das urgências da chamada consolidação orçamental. Aquilo de que a RTP precisa (porque a concorrência leal precisa e porque Portugal precisa também) não é de deixar de emitir publicidade, mas de ser reduzida à sua justa dimensão. O canal 1 tem de continuar a ter publicidade. O que o canal 1 não pode é continuar a ser um canal público. E isso não tem nada que ver com "desmantelar o serviço público de televisão", como lhe chama Jorge Lacão. Se a RTP fez nos últimos anos um nadinha mais de serviço público do que a SIC e a TVI, foi por vergonha. De resto, estão lá a RTP2, a RTPN, os dois canais regionais e a RTP Interna-cional para garantir o serviço público necessário.

2. O AXN escolheu a melhor maneira de lançar-se em Portugal. Boardwalk Empire, garante a melhor crítica internacional, é um estrondo. Num contexto em que a própria FOX se prepara para suspender uma data de séries importantes (Lie to Me, Traffic Light, etc., etc.), ter de repente acesso a uma saga lançada por Martin Scorcese, com Steve Buscemi como protagonista, é um oásis de esperança.

14 de maio de 2011

Fecho


Em fecho, hoje, a habitual crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

O Último Telejornal

1. Os telejornais do futuro não serão como o Jornal das 8 (TVI). Com a morte da TV generalista, situada à distância de uma geração para nós e a menor distância ainda para outros povos ocidentais, a informação ficará reduzida quase em exclusivo aos canais temáticos - e os telejornais das estações informativas manter-se-ão tendencialmente sóbrios, sem grandes ansiedades de entretenimento, e apenas aqui e ali "espectaculares", para assinalar a passagem de determinado evento ou efeméride. No fundo, o Jornal das 8 é um telejornal do passado (ou a caminho disso). Neste contexto que (ainda) temos, porém, funciona bem. Tem quase tudo lá dentro: segmentos mais aparatosos, segmentos mais circunspectos e segmentos mais magazinescos - e, no fim, nem sequer se preocupa em forçar a nota da independência perante José Sócrates, o Governo cessante ou mesmo o PS, o que seria a pior maneira de contestar as críticas de Manuela Moura Guedes. É um bom telejornal, o que, tendo em conta o facto de serem oito da noite e haver um símbolo da TVI no canto superior esquerdo do ecrã, já tem o seu significado. Um dia, teremos saudades destes modelos.


2. Nenhum adepto de House M.D. estranhará que se comece a falar no fim da série, tão grande tem sido a erosão verificada, ao longo destes anos, no carisma da sua personagem central. Bem vistas as coisas, tudo tem um fim. Saúde-se, no entanto, a súbita inversão de trajectória narrativa operada ao longo desta sétima temporada, incluindo a zanga com Cuddy e o regresso ao vício do Vicodin. Afinal, Gregory House apaixonado, livre das drogas e preocupado em fazer a coisa certa não era Gregory House.

12 de maio de 2011

Fecho


Em fecho mais uma crónica da autoria de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

Meio carne, meio peixe

Comparado com os reality shows em que se inspira, O Último a Sair (RTP1) é, naturalmente, um passo em frente. Distingue-o a ficção e distingue-o a ironia: a ironia que já demonstrou sobre os outros (e sobre o universo da televisão em geral) e a ironia que promete demonstrar sobre si próprio (e sobre o humor na televisão em particular).

O problema é que, se participantes como Miguel Guilherme, Rui Unas, Bruno Nogueira, Gonçalo Waddington ou mesmo Luís Pereira de Sousa interpretam bem essa ironia, o mesmo não se poderá dizer de Luciana Abreu e Roberto Leal, que têm claramente uma agenda mediática, ou de outsiders como Filipa Castro, Débora Monteiro, Sónia Balacó e Susana Mendes, que não só têm uma agenda mediática, como essa agenda pode depender perigosamente deste programa.

Resultado: um formato claramente a duas velocidades, pelo menos na primeira edição, emitida domingo.

Se uns estão ali para ganhar uns cobres, gozar o pratinho e (quem sabe) satirizar um pouco a TV mais tonta, outros estão ali para se mostrarem, para exibirem os seus talentos (?) e para, na melhor das hipóteses, voltarem a aparecer em programas do género.

É o que percebo do comportamento de cada um "dentro da casa" e mesmo nas entrevistas prévias em que se dão a conhecer, e ao longo das quais se chegou a ouvir a frase "O meu principal defeito? Ser boa de mais" (entre outras, entre outras).
E a única forma de que isto venha a resultar numa sátira global à TV é se as raparigas (mais Roberto Leal) não estiverem ali para outra coisa senão para serem gozadas à fartazana pelos rapazes (com o Batatoon a aplaudir ao fundo, isto é).
Será divertido. Mas chegará?

10 de maio de 2011

Fecho


Fechamos esta segunda-feira com a habitual crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Excluíram a alcatra?

Nascido e criado na ilha Terceira, constatei com pesar a exclusão da alcatra terceirense da última etapa do concurso das 7 Maravilhas Gastronómicas (cuja final está marcada para Setembro, em Santarém, com transmissão na RTP).

Não tive mais pena, no entanto, do que um beirão, um alentejano ou um almeirinense tiveram ao verem excluídos os maranhos, as migas à alentejana ou as favas com chouriço. E, de qualquer maneira, o que me separa da profusão deste tipo de concursos não tem a ver propriamente com preferências pessoais.

Disse "da profusão destes concursos" e disse bem. Porque uma coisa foi a chamada Gala das 7 Maravilhas, eleição e entrega de prémios final, incluindo a viagem por alguns dos principais monumentos portugueses e, naturalmente, pela história de Portugal também; e outra é a transformação das "7 maravilhas" numa marca que continuemos a reaplicar ad aeternum, o que por um lado se revelará televisivamente insuportável e por outro acabará por fixar um cânone imediatista e tonto para cada pequeno sector da nossa vida pública.

O que me separa da profusão desde tipo de concursos, pois, não é aquilo que a própria organização gostaria que me separasse: o meu (e o nosso) protesto pela exclusão deste ou daquele prato - da alcatra terceirense, ou do bitoque de Vila Velha de Ródão -, a ver se a polémica traz lastro ao negócio.

O que me separa dela é o justificado receio de que, em breve, estejamos a eleger as 7 Maravilhas do Artesanato Português, as 7 Maravilhas da Enologia Ribatejana ou as 7 Mais Maravilhosas Maneiras de Dançar o Vira do Minho, para citar apenas as hipóteses mais prováveis.
 
E a criatividade - por onde andará ela?

9 de maio de 2011

Fecho


Em fecho, hoje, a habitual crónica de Joel Neto retirada do Diário de Notícias.

O fim da paciência

1. Se dúvidas ainda persistiam de que o modelo do reality show vive o seu estertor de morte, eis aí as queixas dos "famosos" da TVI quanto à forma como foram recebidos e tratados na selva, ao longo das gravações dos três segmentos do programa Perdidos na Tribo. Realidade, ainda vá. Tribos, tudo bem. Perdidos, pronto. Agora, não ser "uma coisa agradável", como havia sido "prometido aos famosos", é que não. Uma pessoa ir para uma tribo recôndita e não levar uma rulotezinha de Hollywood é uma verdadeira falta de respeito. Não chega já disto tudo, de reality shows e de "famosos" e da mais acéfala fase da história da televisão?

2.O problema não é da Entidade Reguladora, que neste caso se limitou a tentar forçar o cumprimento da lei. O problema é da lei mesmo. Obrigar uma estação pública de televisão a ter debates com representantes de todas as forças partidárias é, mais do que legítimo, lógico. Impor a mesma obrigação a estações privadas não é apenas ilógico, como ilegítimo - e, aliás, ridículo. Por uma questão de princípio e por uma questão pragmática. Com a profusão de novos partidos e forças políticas com aspirações a tornarem-se partidos, o mínimo que a lei deveria fazer, em persistindo este nosso habitual "superestado", era traçar algures (algures num ponto razoável, isto é) uma linha delimitadora do objecto das obrigações dos canais. Isto num contexto de pragmatismo. Num contexto de princípios? Simplesmente não haver qualquer obrigação do género no que diz respeito às privadas - nem das estações para com os partidos nem destes para com elas. Pois estão aí os debates - e a sua simples marcação, como de costume, foi polémica. O que pensará disto a troika?

7 de maio de 2011

Fecho


Esta noite, em fecho, mais uma crónica de autoria de Joel Neto e retirada do Diário de Notícias.

Um caso humano

Penso que posso afirmar, com um bom grau de segurança, que nunca gostei de um programa de Teresa Guilherme - e não sei se arrisco muito ao dizer que todos os programas alguma vez feitos por ela foram maus, alguns deles mesmo muito maus. Uma coisa, porém, é esse juízo de valor sobre a qualidade do seu trabalho enquanto apresentadora (e mesmo enquanto produtora) e outro ser capaz de assistir com absoluta insensibilidade a este seu crescente calvário à procura de uma pequena parcela do protagonismo que já teve.

Depois de ser dada como certa no elenco de Beijo na Boca, nova telenovela da Globo que depois passará na SIC, Teresa foi substituída à última hora por Marina Mota. A Globo recusou-a, dizem algumas fontes; a SIC persuadiu a Globo a recusá-la, arriscam outras.

Não importa: se efectivamente o lamentou publicamente "com a voz embargada", como dizia ontem o Correio da Manhã, Teresa merece a minha solidariedade.

Ao longo de décadas, Teresa Guilherme tirou da televisão tudo o que esta tinha para lhe dar. Depois, baralhou e voltou a dar - e, durante muito tempo, ainda prolongou o sucesso. O facto, porém, é que também deu bastante dinheiro a ganhar às estações portuguesas, nomeadamente às privadas. Que não reencontre agora o seu espaço, nem como produtora, nem como apresentadora, nem sequer como actriz, há-de ser sinal dos ressentimentos (justificados ou não) que acumulou entre os seus pares. Mas também da ingratidão e da crueldade da televisão portuguesa para com ela.

Se era para a ostracizar assim, então mais valia que a TV nacional não se tivesse aproveitado tão reiteradamente do seu voluntarismo e da sua filosofia de "disposta a [quase] tudo".

5 de maio de 2011

Fecho



Boa noite. O Fecho de hoje incluí uma crónica da autoria de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Dez anos depois

O abate de Ussama ben Laden trouxe à luz do dia uma evidência incontornável: os dez anos que mediaram o início e o fim da perseguição ao fundador da Al-Qaeda foram suficientes para transformar o perfil da produção, da distribuição e do consumo de notícias, o que por sua vez transformou as notícias elas próprias.

Há dez anos vivíamos o tempo das estações noticiosas - e todos nós pudemos assistir em directo, assim que nos demos conta da ocorrência, ao fumo saindo das Torres Gémeas, aos executivos atirando-se das janelas das Torres Gémeas, às Torres Gémeas colapsando e, algumas horas depois, ao presidente Bush discursando sobre as Torres Gémeas.

Agora vivemos o tempo das redes sociais - e todos fomos avisados antecipadamente de que Barack Obama ia falar de imediato e durante quase dez minutos, acabando por assistir em directo ao acontecimento desde o seu início.
 

O que se ganhou em dez anos não foi mais do que aquilo: os trinta, vinte, mesmo dez minutos que antes mediavam entre um facto e a sua tomada de consciência por parte da população ocidental.
Acontece que esses trinta, vinte, mesmo dez minutos são quase tudo. Porque o público os exigia e porque, sem eles, jamais um cidadão anónimo podia sentir-se, como se sente hoje, uma testemunha ocular da história, quase um protagonista dela.

E, se porventura a alguém parecer que quem perdeu com isto foram as estações noticiosas, pois talvez deva pensar melhor.
É verdade que os modelos de negócio dos media online ainda não estão devidamente construídos. Mas, ontem, continuavam a ser as estações noticiosas a munir as redes sociais e a blogosfera de imagens. E isso vale dinheiro.

3 de maio de 2011

Fecho


Boa noite. O Fecho de hoje incluí uma crónica da autoria de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Nascer de novo

José Alberto Carvalho percebeu tudo. A informação da TVI podia ter o respeito dos telespectadores, mas não tinha respeitabilidade intrínseca - e, para ganhá-la, não lhe sobrava outra alternativa senão nascer de novo. A mudança de nome do até hoje chamado Jornal Nacional (e a partir de agora Jornal das 8) é uma decisão inteligente. A aposta num "novo conceito", incluindo a apresentação partilhada com Judite Sousa, é outra. E a reformulação da imagem gráfica em que tudo isso será embrulhado é outra ainda.

Mas uma coisa é a imagem da informação da TVI e outra a imagem da TVI ela própria. E a imagem da TVI continua a enfermar de graves problemas. A da RTP é cinzentona, mas ao menos é sóbria. A da SIC é garridíssima, mas ao menos tem uma paleta sofisticada. Já a da TVI fá-la muitas vezes parecer um canal sul-americano, bafiento e choroso, esticando a corda das cores "vendáveis" até a um ponto em que se torna impossível sequer descortinar a medida certa. E bem fazia a estação se se submetesse, em geral, à mesma reformulação que José Alberto Carvalho impôs na informação.
Até porque está mais do que visto que aquilo que no passado a tornou num sucesso já não será suficiente para permitir-lhe manter-se um sucesso por muito tempo.

A prazo, o modelo "televisão Feira Popular" terá sido chão que deu uvas. Entretanto, o modelo "televisão loja dos trezentos" também já não será alternativa. A nova Direcção de Informação demonstra sabê-lo, abrindo momentaneamente a Queluz uma porta de saída. É apenas questão de a estação decidir-se agora sobre se quer ou não sofisticar-se um pouco. Tão depressa não haverá nova possibilidade de refundação.

30 de abril de 2011

Fecho


Boa noite. Fechamos esta sexta-feira com a habitual crónica de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

'Money making'

1 Vale a pena ter em atenção a nova aposta da TVI em megaproduções (Mundo Sem Fim, Labirinto Perdido, Treasure Island, Neverland...), que de resto espelha a crescente atenção dispensada às megaproduções pelas próprias feiras internacionais. Parece, como já aconteceu no passado, a televisão fazendo um esforço por entrar no mercado do cinema, tentando juntar grandes actores e narrativas épicas. Mas não é: é, desta vez, o cinema fazendo um esforço por entrar no mercado da televisão, como o prova a presença, entre os novos e mais activos produtores de TV, de nomes como os de Ridley e Tony Scott, entre tantos outros. O resultado, regra geral, é um claro salto qualitativo em relação ao que se verificou com as intercepções do passado. Ou seja, ganham todos: o cinema acumula uma nova fonte de rendimentos, a televisão cresce em qualidade, e nós, espectadores, passamos a dispor de mais e melhor escolha.

2 Confesso alguma expectativa em relação ao que será exactamente uMan, esse "reality show interactivo" que a Ongoing prepara para a Zon e, aliás, para o mercado chinês também. Para já, registo duas evidências: que José Eduardo Moniz permanece um visionário e um homem de TV como não tivemos nunca outro; e que José Eduardo Moniz continua muito pouco preocupado em fazer a evoluir a TV do ponto de vista da qualidade de conteúdos, mantendo-se interessado sobretudo em reforçar a sua rendibilidade. É um trabalho sujo, mas alguém tem de o fazer. Em televisão, são cada vez mais os maus programas que pagam os bons. O que seria aborrecidíssimo se não se desse o caso de, regra geral, o mesmo acontecer com o cinema, com a música e com a cultura pop em geral.

28 de abril de 2011

Fecho



Boa noite. O Fecho de hoje incluí uma crónica da autoria de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Para cima, para baixo

1 A TVI passa em Setembro, aos dias de semana, a emitir apenas duas telenovelas no período da noite. A medida é apresentada como uma redefinição da estratégia, mas também é seguramente uma resposta à crise económica, uma vez que a produção de telenovelas é cara. Pois eis, enfim, o início de algo que há muito se esperava, mas nunca mais aparecia: a urgência, em resultado da necessidade de contenção financeira, de reduzir a aposta nos modelos tradicionais, substituindo-os por modelos menos despesistas e mais criativos. O problema é que, para ocupar o espaço da terceira telenovela, a TVI ainda só tem prevista uma coisa: os diários da segunda edição de Casa dos Segredos. Não chega.

2 Discordo da participação não editada de anónimos nos media - e o vox pop, já se sabe, não me merece mais do que um bocejo, até pela preguiça jornalística que envolve. Desta vez, no entanto, tenho de agradecer a ambos uma importante conclusão. Um fim-de-semana a ver e ouvir o vox pop e um dia útil a ver e ouvir os fóruns e as antenas abertas mostraram-me claramente que uma enorme fatia dos portugueses continua a transformar estas eleições legislativas num referendo a Sócrates, reduzindo-as praticamente a um joguinho de futebol PS-PSD. E o que isso quer dizer é que a crise ainda não chegou a muitos deles. Isto não são umas eleições, não: isto é um derby. Coisa de ricos. Ainda bem.

3 Tal como adiou o arranque de A Rede Social, de Manuela Moura Guedes, a SIC adiou também o regresso de Plano Inclinado, de Mário Crespo. Fez igualmente bem. Mário Crespo é um bom jornalista, mas geriu desastrosamente a sua oposição ao "socratismo". Precisa de tempo.

26 de abril de 2011

Fecho

                                  

Boa noite. O Fecho de hoje incluí uma crónica da autoria de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

Jornalistas e cidadãos


Jornalista há duas décadas, habituei-me aos andrajos com que tantos colegas de profissão fazem questão de sublinhar a sua liberdade de espírito. Na TV, claro, está tudo engravatadinho. Mas a regra em vigor na minha classe, agora como há uma série de anos, é clara: em não havendo "vivo" televisivo, quanto mais mal vestido melhor. Por detrás da câmara que filma um engravatadinho, pois, há quase sempre um tipo de calças de ganga sebosas e sapatos de trekking tão sujos como se tivessem acabado de chegar da montanha - e à volta desse tipo, sentadas pelo chão, há pessoas de calções, de chinelos, até de camisas de alças.

Normalmente, é-me indiferente. Mas, agora que anda aí a troika, vou encontrando jornalistas um pouco por toda a cidade, à espera de ouvir este ou aquele, aguardando o fim desta reunião ou daquela - e os quadros que encontro constrangem-me. Parece moralismo, mas não é. O aspecto (e o comportamento) andrajoso dos jornalistas, sabe-o bem quem quer que tenha andado em reportagem pelo estrangeiro, é muito mais tipicamente coisa de país periférico, quase sempre pobre e tantas vezes latino, o que, neste caso, não deixará de ter pelo menos algum significado para a dita troika. Por outro lado, não me parece propriamente apaziguador, num momento em que tanto precisamos dos jornalistas para nos ajudarem a decifrar tão intrincadas negociações, que eles se considerem os únicos dispensados de se apresentarem consoante a gravidade do momento.

Facto: grassa entre os jornalistas a ideia de que lhes cabe testemunhar, testar e invectivar, mas no fundo não é nada com eles. E talvez isso ajude a explicar a progressiva marginalização do jornalismo tradicional, TV incluída.



24 de abril de 2011

Fecho


Boa noite. O Fecho de hoje incluí uma crónica da autoria de Joel Neto, retirada do Diário de Notícias.

O lugar do porno



Toda a gente tem direito a uma determinada dose de pornografia - e toda a gente, aliás, usufrui dela. É curioso comparar o que hoje consideramos pornografia com aquilo que, há cinquenta anos apenas, os nossos avós rotulavam com essa palavra. É verdade que o anátema se mantém, mas por outro lado os limites comprimiram-se.

Há apenas umas décadas, um peito desnudo ou um palavrão eram suficientes para gerar o choque, o debate e, em muitos casos, novas diligências proibicionistas. Hoje convivemos com peitos e rabos com a maior das facilidades, no cinema, na TV e até na publicidade mainstream. Pornografia já é só o acto sexual em si - e tem de ser bem explícito, incluindo glandes e prepúcios. Nem a pornografia à japonesa, com mosaicos a tapar as zonas de fricção, já é bem pornografia. Quando muito, é soft porn.

Todas as grandes crises económicas foram terreno fértil para o desenvolvimento da actividade. Esta tem-no sido também. A Internet disseminou as oportunidades - e não são poucos os cidadãos anónimos que, com maior ou menor grau de perversidade, lançaram os seus negócios na área. E, entretanto, muitos outros anónimos ainda, nomeadamente jovens, estão agora na disposição de fazer sexo em frente às câmaras apenas pelo prazer da experiência.

Uma série de ficção sobre o crescimento desse universo, como aquela que o canal Arte anunciou (Xanadu), é uma boa ideia. Assim como é uma boa ideia a importação, pela SIC Radical, do programa Sexcetera, da Playboy TV. A desmistificação tem sempre o efeito de reduzir a vertigem. Mas, mais uma vez, a TV cumpre o seu papel de democratizar. De resto, há telenovelas com conteúdo bem mais obsceno, até porque desprovidas de humor.